Algumas das lembranças mais agradáveis que tenho da minha época de aspirante-à-oficial PM são os cafés da manhã comunitários que coordenava em minha unidade. A qualidade de Chefe da P/5 (Seção de Assuntos Civis) de meu batalhão dava-me esta incumbência. Era o 23º BPM, área que cobre a parte mais nobre da zona sul da capital, seguindo a orla de S. Conrado até Ipanema, incluindo a Lagoa, Gávea, Jd. Botânico e, por conseqüencia, as comunidades da Rocinha, Vidigal e Cruzada S. Sebastião. A Chefe anterior era uma oficial que respeito muito, eu pedi pra ela se poderia assumir a função de P/5, e ela: “Claro, toma que é sua!”, o meu comandante à epoca, não se opôs e então assumi tal função.
Por formação familiar, desde muito cedo, freqüentava debates de idéias, na minha adolescência, em “círculos” bíblicos. Religião à parte, eu gostava mesmo era do ambiente em que pessoas de diversas opiniões, formações e níveis de educação formal discorriam acerca de temas, polêmicos ou não, ao redor de uma mesa com posterior “coffee-break”. Fazer o que? Gostava mesmo daquilo. O café da manhã comunitário evoluiu para os Conselhos Comunitários de Segurança (CCS), ganhando um tom mais formal e a coordenação do ISP, este órgão deveria receber mensalmente a ata de tais reuniões. Os integrantes desses CCS eram os Delegados da área, o Comandante do batalhão, os chefes de demais órgãos da chamada “defesa social” (saúde, educação, defesa civil, fiscais de posturas diversos), além da Guarda Municipal e, principalmente, os representantes das associações de moradores.
Ali percebi que além do debate de idéias, o CCS poderia ser uma poderosa ferramenta de captação de dados, de manchas de criminalidade e, pasmem, focos de corrupção policial. Da parte dos demais representantes do poder público, as posturas variavam entre “passar a bola” do problema apresentado e eximir-se de responsabilidade acerca dele. O famoso “filho feio, não tem pai”. Quase sempre a iniciativa de resolver os problemas era nossa, da Policia Militar ou Civil, sejam eles menores de rua, mendigos, desordem urbana em geral. Nota-se que dificilmente eu ouvia alguém reclamar do tráfico de drogas. A maioria das reclamações dos moradores era sobre desordem, trânsito e crimes contra o patrimônio.
Esses moradores eram um caso à parte. Também variavam entre si acerca de intenções, formação, pontos de vista, interesses políticos, etc. Mas na imensa maioria dos casos estavam dispostos a ajudar. O que cobravam de volta era coisas simples como: manter sempre o mesmo policial em um setor, cobrir uma mancha criminal aguda ou, simplesmente, serem ouvidos. Ali tratavam-se de pessoas de alto poder aquisitivo e isso explicava quase tudo. Esses clientes gostam de criar vínculos de confiança também com seus servidores. Gostam de ver sempre o mesmo policial na cabine próxima a sua residência, e, quando passam, o conhecem pelo nome, dão bom-dia, oferecem algo de beber ou comer… E o fiscaliza melhor, tanto quanto à horário ou freqüência ao serviço. Os representantes das favelas mais ouviam do que falavam. Ali conheci William de Oliveira, o presidente da UPMMR (União Pró Melhoramentos da Rocinha), antes de ser preso, acusado de colaborar com o tráfico de drogas local. Ainda assim, parecia que naquela área as relações entre as outras associações de moradores e suas bases não estava contaminada pelo tráfico ou qualquer outro interesse ilícito.
Ainda assim, o mais difícil era fazerem-se ouvidos. É complicado para um comandante ou delegado aceitar passivamente sugestões acerca do planejamento de segurança pública de sua área. Principalmente se for uma moradora (a segurança pública ainda é essencialmente machista). Um comandante de batalhão da PM tem no mínimo 20 anos de serviço e uns 3 cursos de no mínimo 1 ano falando apenas de segurança pública. Um delegado é formado em Direito e aprovado em um concurso com razoável nível de dificuldade. Tratam-se, nesses casos, de pessoas tarimbadas, especialistas, que não gostam quando “paisanos (civis) dão pitacos no seu trabalho”. Do meu lado também era complicado. Num primeiro momento era Aspirante, depois, 2º tenente, ainda assim “moderno”, novato demais. Era difícil eu compilar as necessidades dos moradores e dar solução delas sozinho. Deveria apresenta-las aos meus superiores, que, depois de avaliar prioridades, resolveriam ou não aquelas necessidades apresentadas. Também pela característica autocrática do militarismo, um comandante pode sentir-se enciumado em saber que seu soldado recebe “ordens” dos moradores do seu setor, e esse é o pior sentimento que poderia surgir nessa relação complicada que vou apresentar agora.
Dificilmente um Policial Militar ou Civil mora na Zona Sul do Rio de Janeiro, devido à situação salarial dos mesmos. Exceto por algum oficial superior com muito tempo de serviço e um ou outro agente que venha de uma família abastada, normalmente o policial mora na zona norte, oeste ou baixada fluminense. Muitas vezes o próprio comandante do batalhão da área não mora ou nunca morou na área e isso, novamente digo, agrava-se quando é designado para comandar alguma unidade da zona sul. O choque muitas vezes é inevitável, longe de ser uma luta de classes. Poderíamos dizer que é um conflito de visões, o interesses dos clientes com a doutrina dos órgãos. Mesmo doutrinas mais modernas como a “polícia comunitária” faz a mesma fórmula desde o morro até o asfalto, seja em S. Conrado, Tijuca, Bangu ou Rio das Pedras. Uma das melhores lições que tive na minha recente Pós-Graduação em Políticas e Gestão em Segurança Pública foi que o crime, e por conseqüencia sua prevenção, são dinâmicos, plásticos e geograficamente localizados.
Ninguém melhor para conhecer e apresentar sugestões do que os moradores da área em questão. Estao 24H por dia no local e, às vezes, vivem ali há mais tempo do que o comandante da unidade tem de vida. Se bem-intencionados e cientes que a sua rua não é a primeira ou última do bairro, devem ser recebidos como VIP por gestores de segurança pública. O morador ativista em Segurança Pública é tão importante para a Policia Militar, ou seja, para a prevenção, como o X-9 é para a Policia Civil. Muitas vezes esses moradores tem formação em áreas próximas ou afins como o Direito. Alias, muitos são juízes, promotores ou, até mesmo, delegados que agem em outros bairros. Nem sempre tratam-se de néscios preocupados em pôr um “guarda” na porta do seu prédio. Isso claro, estou falando de áreas onde as relações entre moradores e o poder público é em prol da ordem. Em alguns bairros as associações de moradores são ativistas da exclusão da polícia de seu papel de manutenção da ordem, e às vezes isso vai às raias de termos presidentes de associações presos por associação ao tráfico de drogas. Sei que isso não e o caso, atualmente, da minha saudosa Área Integrada de Segurança Pública (AISP) do 23º BPM.