O “Tribunal” do tráfico.

Muito chocou a opinião pública nacional a matéria de domingo, no jornal O Globo, acerca do menor infrator que foi capturado pelos marginais da favela onde reside por ter sido acusado de cometer um furto, pela segunda vez. Segundo a matéria, esse menor teria sido torturado pelos marginais e estava prestes a ser morto, quando um pastor evangélico e sua equipe souberam dos acontecimentos intercederam pela vida do menor, também pela segunda vez.

Coincidentemente, ou não, zappeando pelos canais numa madrugada dessas, vi um daqueles programas de cunho religioso, apresentados por pastores. Ele ofereceu uma frase interessante: “Nunca dê ao Diabo o que não lhe pertence”, ou algo assim. Ele referia-se às pessoas que dizem que “televisão é coisa do diabo” , “dinheiro é coisa do Diabo”, enfim, oferecendo ao Diabo a autoria e posse de qualquer coisa.

Meus caros. Tribunal é uma instituição séria. Aliás, os tribunais, quando surgiram, foram um trunfo da civilização contra a auto-tutela, a justiça feita pelo mais forte. Ali, naquela favela, tratavam-se apenas de criminosos exercendo seu poder de vida e morte naquele pedaço esquecido do território. Mas o que mais me assustou na repercussão do fato, foram comentários do tipo: “pelo menos os vagabundos matam quem rouba”.

Como naquela cena do filme “Tropa de Elite” onde os playboys são assassinados no alto do morro, com direito a “forno microondas” pro rapaz, os marginais simplesmente executam aqueles que não “fecham” com a sua “política”, aqueles que não são desejáveis, ou como no filme “Cidade de Deus”, até aqueles que possam ser mais bonitos do que eles. Trata-se de barbárie, pura e simples. Aqueles marginais tinham a intenção de matar o menor pelo simples fato dele roubar dentro da favela. Inclusive a própria reportagem relata que os traficantes “sugeriram” que o ladrão roubasse “na pista”, cedendo-lhe inclusive armamento para tal. Ou seja, no asfalto pode.

É imprescindível que as autoridades percebam que são necessárias ações instantâneas e de curto, médio, longo prazos acerca da segurança pública. Ações de cunho legal, administrativo e econômico. Aqui lanço mão de uma sugestão polêmica - a legalização do aborto e sua execução pela rede pública.

Entendo que o jornalista quis levar a discussão para o lado do “estado” ou “poder” paralelos. Também acho que não é por aí. Esses marginais, sem juízo, sem organização de fato e com o cérebro corroído pelas drogas vivem apenas o hoje, dia após dia. Não tem pretensão de formar um estado, uma guerrilha organizada ou apoiar algum partido de esquerda. Só o farão se forem convencidos que será lucrativo. É conhecido, e não sou eu que digo, que o tráfico de cocaína e maconha está em declínio frente à drogas sintéticas. Na minha opinião o marginal da favela carioca ainda trafica drogas pelo poder que ele tem sobre o viciado e pela parca grana que consegue amealhar. Também sou de opinião que não enfrentamos maiores índices de criminalidade pela simples ação da física - não há tempo para eles cometerem mais crimes. Se o dia deles tivessem 48H, talvez os índices de criminalidade fossem dobrados.

Deixe um comentário