Mais uma estória
Depois do estresse sofrido logo pela manhã, Tenente Jabor continuou o seu serviço como de costume. As horas passaram e a noite caiu. Depois da problemática troca de turno da noite (muitos policiais atingidos pelo Vírus do Oeste do Nilo) pode, enfim, descansar. Por volta da meia-noite, observou uma silhueta feminina, curvada, adentrando o precinct e dirigindo-se ao restaurante local. Estranhou o movimento, e, sorrateiramente foi ver do que se tratava.
Ao olhar para dentro da cozinha do restaurante, presenciou a seguinte cena: uma mendiga, já bem idosa, preparava uma matula com pães do café-da-manhã anterior, restos de arroz, feijão e carne assada do almoço e janta e algumas frutas que já estavam no limite do consumo. Depois disso, pôs-se a ajudar um dos funcionários a lavar as panelas e caçarolas do preparo da janta. Conversavam animadamente.
Então Jabor adentra o recinto:
- Me.. me… Meu chefe, boa noite… O Senhor necessita de algo?? - Disse o taifeiro
- Nada não. Só queria saber quem é a visita…
- Sou Maria das Dores. Eu ajudo o pessoal aqui e recolho alguma coisa de comer pra ajudar em casa. - Disse a senhora.
- A senhora está servida? - Perguntou Jabor.
- Sim senhor… Hoje tem até carne - Sorriu, mostrando poucos dentes.
- Que bom senhora. Sempre que precisar, pode vir pegar com a gente, ok? Mas agora vou precisar fechar aqui…
- Sim senhor, muito obrigada… -E retirou-se do local.
Após a senhora sair, Jabor questiona o seu funcionário:
- Há quanto tempo ela vem aqui? - Pergunta Jabor
- Meu chefe, faz tempo, mas não vem sempre.
- Por que?
O cozinheiro olha para um lado, para outro e responde com sinceridade:
- Tinha chefe que não gostava. E tinha chefe que não deixava nada para ela.
Jabor respondeu:
- No dia do meu serviço, ela pode receber o que precisar. Mas você deve empacotar e dar para ela ali na porta, está bem? Não cabe a senhora entrar aqui na penumbra. Além disso… Se você faz caridade, não peça para ela fazer parte do seu trabalho.
- Ah, sim senhor, me desculpe…
- Nenhum problema, uma boa noite…
O Tenente retira-se do local e apoia a sua cabeça no travesseiro. Questiona a si mesmo se deveria ter mais pena de quem a miséria escolheu… Ou de quem escolheu ser miserável.